Simples mas difícil



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Não eram um casal perfeito, daqueles de cinema. Brigavam muito, ficavam um tempo sem se falar e nesse intervalo ainda rolava uma guerra de indiretas, cada um querendo ser o dono da verdade. Mas no fundo eles sabiam que tudo era joguinho bobo de orgulho, e que por trás das caras fechadas e bicos não se aguentavam de saudade. Tudo bem se eles passavam uma imagem de cão e gato, mas uma coisa é certa… Eles se amavam mais do que qualquer coisa. Caio Fernando Abreu.  (via aluguefelicidade)


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Eu estava quase dormindo ainda, quando minha mãe me ligou e me pediu para ir almoçar com ela, naqueles almoços em família ou sei lá – coisas que eu odeio. Todo mundo só quer saber de fofocar sobre mim e sobre minhas novas namoradas, se já estou noivo ou trabalhando. É tão difícil entender que eu sou um legítimo inútil? Nunca amei alguém, nunca fiz uma faculdade e nunca levei uma garota para almoçar no dia seguinte. Uma cela confortável por esses crimes, por favor – sou humano. Não é ridículo assim ser cafajeste, digo, eu só nunca achei a garota ideal – não que eu tenha procurado uma, mas não canso de dizer a mim mesmo que ainda vou estar conversando com ela, e aí vou perceber “ques olhos lindos”, e “que cabelo maravilhoso”. Tudo bem, talvez eu não fique assim tão gay, mas eu sei que vou saber. Minha mãe me pediu para passar em três lugares antes. Primeiro, no supermercado comprar algumas coisas para o almoço. Segundo, na casa da amiga da minha sobrinha de nove anos, para leva-la. E terceiro, no médico, pegar um exame que ela fez semana retrasada. Fiquei com medo, porque ninguém me avisara sobre esse exame. Eu sou sempre o último a saber de tudo mesmo, não é como se fosse novidade, mas, e se fosse algo sério? É da minha mãe que estamos falando aqui. Eu não estava nada com clima de conversar com alguém, e justo aí, quando eu estou no supermercado, uma garota loirinha, com os olhos castanhos meio esverdeados, um pouco baixinha, com um andar meio desajeitado e digitando no celular enquanto conduzia o carrinho com apenas uma Nutella, do tamanho “enorme”, um Doritos, do maior, também, três latinhas de Coca-Cola e uma canequinha com bolinhas coloridas estampadas, tromba em mim enquanto passa. Eu estava bem lendo a embalagem do azeite, porque tinha que ser do extra virgem, era o único que minha mãe usava desde… sempre. Ela passou meio correndo, não sei exatamente se me viu ali, mas o carrinho dela bateu em mim e eu xinguei um palavrão. Não exatamente pela dor, o carrinho estava bem leve, mas pelo susto, e é claro, falta de educação de quem quer que tenha sido. Aí eu me virei, e eu não sei exatamente como aconteceu… Ela me olhou, também. A gente não disse nada, só ficamos nos olhando por uns quarenta ou cinquenta segundos – sei que foi muito tempo. Depois daquilo já parecer bem constrangedor, ela disse “Sinto muito, eu sou meio distraída. Me desculpe, mesmo.”, e a voz dela era tão apressada, que engolia algumas letras, talvez até palavras. Ela falava meio histericamente, e depois, ela sorriu de leve, como se me quisesse ver sorrindo também para aliviar a culpa. Eu sorri. “Oi”, foi tudo o que eu consegui dizer, e até hoje eu me lembro disso e fico pensando como devo ter parecido idiota. Aí eu completei “Meu nome é Gabriel, e ah… Sem problemas.”, e ela sorriu de novo. “Legal…”. Depois de uns vinte segundos da gente se encarando outra vez, ela olhou para o azeite na minha mão e disse “Ah, eu acho que você tem alguns problemas em escolher azeites. Você não pode pegar o que tem isso escrito na embalagem, quer dizer que a qualidade não é tão boa. Espera, esse aqui é bem melhor. E eu reparei que está querendo o extra virgem, porque aqueles comuns estão logo ali. Você tem alergia, ou é só frescurinha mesmo?” Dessa vez ela falou mais devagar, com calma, e riu em seguida, em um tom de brincadeira, sem querer me ofender. Deu a volta pelo carrinho e pegou um vidrinho de azeite no fundo da prateleira, me dando e dizendo “Por nada.”, enquanto sorria sem parar. Um cara qualquer, que estivesse procurando alguém, uma namorada ou até ou futuro, teria investido naquela garota. Ela parecia tão esperta, era linda e muito simpática. Mas eu não sou um cara qualquer, então respondi “Não é pra mim. É para a minha mãe.”, e ela pareceu surpresa. Eu não queria muito papo, não sei direito por que, mas eu só a deixei ir. No meio daquele supermercado enorme, ela desapareceu entre as fileiras de frios, enquanto eu ia direto ao caixa. Depois que eu estava já indo embora, pensei que nem ao menos perguntei o nome dela, e voltei. Não sei por que, também, mas voltei. Queria ver de novo aqueles olhos enormes e fascinantes, e perguntar o motivo de algumas olheiras. Queria perguntar se ela conhecia azeites, e se tinha um namorado. Não tem exatamente um motivo, mas dei uma volta inteira no supermercado até encontrar ela. Estava digitando outra vez, e guardou logo o celular a me ver. “Então… Oi, Gabriel.”, e ela riu. Ah… Que risada era aquela? Eu poderia casar com aquela garota só para ouvir a risada todos os dias, para sempre. Eu estava meio ofegante por ter corrido, e nem tinha mais um carrinho, estava claro que tinha voltado. Não sei se ficou claro que era por ela, mas eu não queria soar como idiota. “Hm, você nem me disse seu nome.” “Clara… Você parece cansado.” “Sério?”, e eu ri também. Aí a gente começou a se aproximar, e ela perguntou se eu estava correndo, se eu já tinha terminado as compras ou se tinha perdido meu carrinho. Eu estava contra a parede, porque me sentia um idiota agora. Por que exatamente eu tinha voltado? Nem eu sabia. “Você digita tanto…”. Sei que soou curioso e intrometido demais, mas ela sorriu quando eu disse isso. “Você pergunta tanto… E não responde nada.”, aí eu ri e disse que era justo. Ela foi bem direta, e perguntou se eu queria acompanha-la até o cinema um dia desses. Eu aceitei, e passei meu telefone para ela. Primeiro erro! Nunca dê seu telefone a uma garota, isso a deixa no controle, e com ela no controle, você só se ferra. Sempre. As coisas começaram a complicar depois de uns seis, sete dias. A ligação que nunca chegava. O que tinha de errado comigo? Ela percebera que eu era um idiota, sem nada de especial para lhe oferecer? Minha mãe estava bem, e eram só mais alguns exames de rotina, pelo que me disseram depois. Me preocupei atoa, e também atoa voltei por aquela garota. A questão é que agora eu pensava demais nela, como se a gente já tivesse tido alguma coisa. Como se a gente já tivesse sido namorado, melhor amigo e ainda aquele primo super legal que não te deixa em paz. Como se… fosse ela, a garota. Depois de umas quatro semanas, a ligação finalmente chegou. Ela estava chorando, e sussurrou um “Estranho do supermercado?”, e eu perguntei “Você tá bem, Clara?” “Você lembra o meu nome… Uau.” E aí ela sorriu, deu para senti-la sorrindo de onde quer que ela estivesse falando. Ela continuou: “Eu sei que prometi te ligar, e prometi um cinema, um jantar ou só um passeio por aí, uma corrida no parque… Eu sei, tá? Me desculpe, só estou te ligando agora, porque no meu celular o nome Estranho do supermercado me soou atraente, e aí eu me imaginei trocando mensagens estúpidas com você, beijando você, e te ensinando a escolher azeites. Quero você.” “Você lembra meu nome, pelo menos?” Eu me sentia meio ofendido, era como se ela estivesse meio bêbada, e eu não duvido que estava. “Lucas? Caio? Matheus? Ah… André, não é?” Legal, ela conhecera mais uma dúzia e sei lá quantos estranhos no supermercado. “Você tá bem?”, eu perguntei de novo; não sei por que, mas eu me sentia no dever de cuidar daquela garota. “Não. Absolutamente não. Não, não, não.” Ela xingou, e deu para ouvir um choro mais alto um pouco, um soluço forte. “Cansei de dizer que estou bem! Ninguém entente, ninguém nunca vai entender, estranho. Você pode entender uma coisa dessas?” “Sinceramente, não. Onde é que você está?”, eu perguntei disposto a ir até o outro lado do planeta, se preciso para vê-la outra vez. “Eu não sei. Eu estou aqui, em um bequinho pouco amigável, mas eu quero ficar sozinha. Sobre tudo que me contam sobre a morte àqueles que não são bons, eu diria que estou no inferno. Pode ser, essa dor que estou sentindo não é nada divino.” “Alguém bateu em você?” “Dor por dentro, estranho. Me sinto um lixo.” “Calma, me dá o endereço. Vou aí agora.”. Aí ela me passou a rua, e eu resolvi nem comentar que era atrás de um bar que eu fora uma vez. Coisa da pesada, não é lugar para pessoas do bem. Para garotas meigas, fofas e comportadas irem chorar por algum garoto. E é claro, eu sabia que era por algum garoto. Sempre é.
— Oi, estranho — ela disse deitada no chão, quando me viu chegar.
— Clara! — era tudo o que eu conseguia dizer. Nem parecia a mesma garota do supermercado, dessa vez ela estava com uma garrafa de tequila na mão, uma lâmina prata suja de vermelho no chão ao seu lado e sangue saindo e escorrendo de seus braços. Não consegui deixar de olhar.
— Ah, não se assuste. Iria me afogar em uma banheira, mas eu acho que deve ser ruim demais morrer afogado, não acha?
— Quando fez isso? Depois que falou comigo?
— Não, foi antes.
— Ah, Clara. Vem aqui. — eu a levantei, mas ao ver que ela parecia tão pouco disposta a andar, carreguei ela e a levei até meu carro. — Para onde eu posso te levar?
— Lugar nenhum. Tanto faz.
— Te assustaria te levar para a minha casa?
— Ah… Você vai se aproveitar de mim? Sem problema. Tanto faz, não posso me defender mesmo.
— Claro que não! Onde fica sua casa?
— A sua soa melhor.
A viagem era bem longa, mais de uma hora, e a rua estava bem movimentada — era sexta-feira em São Paulo. Então eu pensei que ela poderia dormir um pouco até lá, e a deitei no banco de trás. Chegando em casa, eu levei ela até a minha cama, a cobri com dois cobertores e troquei toalhas para o sangramento. Passei todos os remédios convenientes, e fiquei ali, sentado ao lado dela, olhando aquele rosto curiosamente perfeito, e desejando ouvir a risada dela outra vez. Não sei quando adormeci, mas sei que quando acordei, só havia um bilhete na cama, e estava escrito: “Eu me lembrei, Gabriel. Seu nome… Eu poderia colocar aqui toda a minha história, para te explicar por que estava naquele estado desprezível ontem à noite quando te liguei, mas você já deve saber: garota ingênua, garoto cafajeste; garota boba, garoto se aproveita; garota se apaixona, garoto vai embora; É sempre o mesmo clichê, acho que eu nunca aprendo mesmo. Você foi muito legal comigo, parece mesmo ser alguém que vale a pena, e por isso mesmo eu não quero estragar a sua vida comigo. Obrigada, viu? E caso ainda queira contato, meu número está no seu celular, mas eu não coloquei meu nome, então acho que você vai ter que pensar um pouco. Já seu número… eu apaguei do meu. Agora você está no controle, rsrs. Não vou esperar ligação nenhuma, mas se ela chegar, eu ficarei muito feliz, acredite. Você nunca mais vai me ver daquele jeito, é uma promessa. A estranha do supermercado.”. No mesmo instante, procurei meu celular, que estava no criado ao lado da cama, e procurei por “Estranha do supermercado”. Nada. “Clara”, também nada. “Garota do azeite” também não funcionou, assim como “Mulher da minha vida”, “Alma gêmea” ou “Linda do supermercado”. Nada, nada. Aí eu procurei entre todos os contatos, o que não foi uma tarefa fácil, admito, e achei na letra M: Merdas, problemas e tudo que pode te fuder. Quando eu estava indo ligar, ainda apareceu uma janelinha na tela: “Pense bem”. Uau, ela arquitetara um ótimo plano, nem eu sabia fazer isso no meu celular. Chamou, chamou, chamou. Cinco vezes, e então atendeu uma voz conhecida. Não a voz chorando, que me ligara na noite passada. Atendeu a voz daquela loirinha linda do supermercado. Atendeu uma voz que fala desesperadamente e come letras, talvez até palavras. Uma voz animada, feliz. Eu percebi então, que era assim que aquela voz tinha que permanecer. Era assim que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida, e principalmente, percebi que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida. Percebi que eu precisava daquela voz, daquela risada, e principalmente, daquela garota. Precisava cuidar dela. Atendeu, e perguntou “Estranho do supermercado?”.
– (sorriso-inconstante). (via sorriso-inconstante)


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Não sei se minha sinceridade é um defeito ou uma qualidade. – rainhadodramaadolescente (via rainhadodramaadolescente)






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— Ela foi embora, cara.
— E você não fez nada?
— Fiz, abri a porta pra que ela saísse.
— (silêncio)
— Qual é o seu problema?
— Sei lá, eu sou um bêbado e nunca gostei de ninguém na vida. Fora isso? Nenhum.
— Ela te ligou hoje cedo?
— Não, só deixou um bilhete em cima da cômoda.
— E o que tava escrito?
— Não me lembro. Rasguei o papel quando vi que era dela.
— Tu é um filho da puta.
— Eu sei, ela disse isso por várias vezes, chorando ao telefone na noite anterior. Eu nem sei com quem ela tava falando, mas ela falava baixo, achava que eu tava dormindo, eu não tava dormindo. Pior do que ouvir você dizer que eu não valho nada, foi ler tudo que eu li. Ela dizia que tinha ido embora, mas era eu quem tinha a abandonado primeiro. Acha que fui covarde abrindo a porta pra ela sair? Diz isso porque não viu a cara dela quando eu não fiz nada pra que ela ficasse.
— E o amor? Como fica?
— Fica comigo.
– (via abstinenc-e)


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Porque no fundo, você sabe que essa pequena mudança da sorte é um sinal das coisas que estão por vir. – A Menina que Roubava Livros (via ideiasaleatorias)


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E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais…
Vinícius de Moraes   (via aquarelar)


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Não eram um casal perfeito, daqueles de cinema. Brigavam muito, ficavam um tempo sem se falar e nesse intervalo ainda rolava uma guerra de indiretas, cada um querendo ser o dono da verdade. Mas no fundo eles sabiam que tudo era joguinho bobo de orgulho, e que por trás das caras fechadas e bicos não se aguentavam de saudade. Tudo bem se eles passavam uma imagem de cão e gato, mas uma coisa é certa… Eles se amavam mais do que qualquer coisa. Caio Fernando Abreu.  (via aluguefelicidade)


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Eu estava quase dormindo ainda, quando minha mãe me ligou e me pediu para ir almoçar com ela, naqueles almoços em família ou sei lá – coisas que eu odeio. Todo mundo só quer saber de fofocar sobre mim e sobre minhas novas namoradas, se já estou noivo ou trabalhando. É tão difícil entender que eu sou um legítimo inútil? Nunca amei alguém, nunca fiz uma faculdade e nunca levei uma garota para almoçar no dia seguinte. Uma cela confortável por esses crimes, por favor – sou humano. Não é ridículo assim ser cafajeste, digo, eu só nunca achei a garota ideal – não que eu tenha procurado uma, mas não canso de dizer a mim mesmo que ainda vou estar conversando com ela, e aí vou perceber “ques olhos lindos”, e “que cabelo maravilhoso”. Tudo bem, talvez eu não fique assim tão gay, mas eu sei que vou saber. Minha mãe me pediu para passar em três lugares antes. Primeiro, no supermercado comprar algumas coisas para o almoço. Segundo, na casa da amiga da minha sobrinha de nove anos, para leva-la. E terceiro, no médico, pegar um exame que ela fez semana retrasada. Fiquei com medo, porque ninguém me avisara sobre esse exame. Eu sou sempre o último a saber de tudo mesmo, não é como se fosse novidade, mas, e se fosse algo sério? É da minha mãe que estamos falando aqui. Eu não estava nada com clima de conversar com alguém, e justo aí, quando eu estou no supermercado, uma garota loirinha, com os olhos castanhos meio esverdeados, um pouco baixinha, com um andar meio desajeitado e digitando no celular enquanto conduzia o carrinho com apenas uma Nutella, do tamanho “enorme”, um Doritos, do maior, também, três latinhas de Coca-Cola e uma canequinha com bolinhas coloridas estampadas, tromba em mim enquanto passa. Eu estava bem lendo a embalagem do azeite, porque tinha que ser do extra virgem, era o único que minha mãe usava desde… sempre. Ela passou meio correndo, não sei exatamente se me viu ali, mas o carrinho dela bateu em mim e eu xinguei um palavrão. Não exatamente pela dor, o carrinho estava bem leve, mas pelo susto, e é claro, falta de educação de quem quer que tenha sido. Aí eu me virei, e eu não sei exatamente como aconteceu… Ela me olhou, também. A gente não disse nada, só ficamos nos olhando por uns quarenta ou cinquenta segundos – sei que foi muito tempo. Depois daquilo já parecer bem constrangedor, ela disse “Sinto muito, eu sou meio distraída. Me desculpe, mesmo.”, e a voz dela era tão apressada, que engolia algumas letras, talvez até palavras. Ela falava meio histericamente, e depois, ela sorriu de leve, como se me quisesse ver sorrindo também para aliviar a culpa. Eu sorri. “Oi”, foi tudo o que eu consegui dizer, e até hoje eu me lembro disso e fico pensando como devo ter parecido idiota. Aí eu completei “Meu nome é Gabriel, e ah… Sem problemas.”, e ela sorriu de novo. “Legal…”. Depois de uns vinte segundos da gente se encarando outra vez, ela olhou para o azeite na minha mão e disse “Ah, eu acho que você tem alguns problemas em escolher azeites. Você não pode pegar o que tem isso escrito na embalagem, quer dizer que a qualidade não é tão boa. Espera, esse aqui é bem melhor. E eu reparei que está querendo o extra virgem, porque aqueles comuns estão logo ali. Você tem alergia, ou é só frescurinha mesmo?” Dessa vez ela falou mais devagar, com calma, e riu em seguida, em um tom de brincadeira, sem querer me ofender. Deu a volta pelo carrinho e pegou um vidrinho de azeite no fundo da prateleira, me dando e dizendo “Por nada.”, enquanto sorria sem parar. Um cara qualquer, que estivesse procurando alguém, uma namorada ou até ou futuro, teria investido naquela garota. Ela parecia tão esperta, era linda e muito simpática. Mas eu não sou um cara qualquer, então respondi “Não é pra mim. É para a minha mãe.”, e ela pareceu surpresa. Eu não queria muito papo, não sei direito por que, mas eu só a deixei ir. No meio daquele supermercado enorme, ela desapareceu entre as fileiras de frios, enquanto eu ia direto ao caixa. Depois que eu estava já indo embora, pensei que nem ao menos perguntei o nome dela, e voltei. Não sei por que, também, mas voltei. Queria ver de novo aqueles olhos enormes e fascinantes, e perguntar o motivo de algumas olheiras. Queria perguntar se ela conhecia azeites, e se tinha um namorado. Não tem exatamente um motivo, mas dei uma volta inteira no supermercado até encontrar ela. Estava digitando outra vez, e guardou logo o celular a me ver. “Então… Oi, Gabriel.”, e ela riu. Ah… Que risada era aquela? Eu poderia casar com aquela garota só para ouvir a risada todos os dias, para sempre. Eu estava meio ofegante por ter corrido, e nem tinha mais um carrinho, estava claro que tinha voltado. Não sei se ficou claro que era por ela, mas eu não queria soar como idiota. “Hm, você nem me disse seu nome.” “Clara… Você parece cansado.” “Sério?”, e eu ri também. Aí a gente começou a se aproximar, e ela perguntou se eu estava correndo, se eu já tinha terminado as compras ou se tinha perdido meu carrinho. Eu estava contra a parede, porque me sentia um idiota agora. Por que exatamente eu tinha voltado? Nem eu sabia. “Você digita tanto…”. Sei que soou curioso e intrometido demais, mas ela sorriu quando eu disse isso. “Você pergunta tanto… E não responde nada.”, aí eu ri e disse que era justo. Ela foi bem direta, e perguntou se eu queria acompanha-la até o cinema um dia desses. Eu aceitei, e passei meu telefone para ela. Primeiro erro! Nunca dê seu telefone a uma garota, isso a deixa no controle, e com ela no controle, você só se ferra. Sempre. As coisas começaram a complicar depois de uns seis, sete dias. A ligação que nunca chegava. O que tinha de errado comigo? Ela percebera que eu era um idiota, sem nada de especial para lhe oferecer? Minha mãe estava bem, e eram só mais alguns exames de rotina, pelo que me disseram depois. Me preocupei atoa, e também atoa voltei por aquela garota. A questão é que agora eu pensava demais nela, como se a gente já tivesse tido alguma coisa. Como se a gente já tivesse sido namorado, melhor amigo e ainda aquele primo super legal que não te deixa em paz. Como se… fosse ela, a garota. Depois de umas quatro semanas, a ligação finalmente chegou. Ela estava chorando, e sussurrou um “Estranho do supermercado?”, e eu perguntei “Você tá bem, Clara?” “Você lembra o meu nome… Uau.” E aí ela sorriu, deu para senti-la sorrindo de onde quer que ela estivesse falando. Ela continuou: “Eu sei que prometi te ligar, e prometi um cinema, um jantar ou só um passeio por aí, uma corrida no parque… Eu sei, tá? Me desculpe, só estou te ligando agora, porque no meu celular o nome Estranho do supermercado me soou atraente, e aí eu me imaginei trocando mensagens estúpidas com você, beijando você, e te ensinando a escolher azeites. Quero você.” “Você lembra meu nome, pelo menos?” Eu me sentia meio ofendido, era como se ela estivesse meio bêbada, e eu não duvido que estava. “Lucas? Caio? Matheus? Ah… André, não é?” Legal, ela conhecera mais uma dúzia e sei lá quantos estranhos no supermercado. “Você tá bem?”, eu perguntei de novo; não sei por que, mas eu me sentia no dever de cuidar daquela garota. “Não. Absolutamente não. Não, não, não.” Ela xingou, e deu para ouvir um choro mais alto um pouco, um soluço forte. “Cansei de dizer que estou bem! Ninguém entente, ninguém nunca vai entender, estranho. Você pode entender uma coisa dessas?” “Sinceramente, não. Onde é que você está?”, eu perguntei disposto a ir até o outro lado do planeta, se preciso para vê-la outra vez. “Eu não sei. Eu estou aqui, em um bequinho pouco amigável, mas eu quero ficar sozinha. Sobre tudo que me contam sobre a morte àqueles que não são bons, eu diria que estou no inferno. Pode ser, essa dor que estou sentindo não é nada divino.” “Alguém bateu em você?” “Dor por dentro, estranho. Me sinto um lixo.” “Calma, me dá o endereço. Vou aí agora.”. Aí ela me passou a rua, e eu resolvi nem comentar que era atrás de um bar que eu fora uma vez. Coisa da pesada, não é lugar para pessoas do bem. Para garotas meigas, fofas e comportadas irem chorar por algum garoto. E é claro, eu sabia que era por algum garoto. Sempre é.
— Oi, estranho — ela disse deitada no chão, quando me viu chegar.
— Clara! — era tudo o que eu conseguia dizer. Nem parecia a mesma garota do supermercado, dessa vez ela estava com uma garrafa de tequila na mão, uma lâmina prata suja de vermelho no chão ao seu lado e sangue saindo e escorrendo de seus braços. Não consegui deixar de olhar.
— Ah, não se assuste. Iria me afogar em uma banheira, mas eu acho que deve ser ruim demais morrer afogado, não acha?
— Quando fez isso? Depois que falou comigo?
— Não, foi antes.
— Ah, Clara. Vem aqui. — eu a levantei, mas ao ver que ela parecia tão pouco disposta a andar, carreguei ela e a levei até meu carro. — Para onde eu posso te levar?
— Lugar nenhum. Tanto faz.
— Te assustaria te levar para a minha casa?
— Ah… Você vai se aproveitar de mim? Sem problema. Tanto faz, não posso me defender mesmo.
— Claro que não! Onde fica sua casa?
— A sua soa melhor.
A viagem era bem longa, mais de uma hora, e a rua estava bem movimentada — era sexta-feira em São Paulo. Então eu pensei que ela poderia dormir um pouco até lá, e a deitei no banco de trás. Chegando em casa, eu levei ela até a minha cama, a cobri com dois cobertores e troquei toalhas para o sangramento. Passei todos os remédios convenientes, e fiquei ali, sentado ao lado dela, olhando aquele rosto curiosamente perfeito, e desejando ouvir a risada dela outra vez. Não sei quando adormeci, mas sei que quando acordei, só havia um bilhete na cama, e estava escrito: “Eu me lembrei, Gabriel. Seu nome… Eu poderia colocar aqui toda a minha história, para te explicar por que estava naquele estado desprezível ontem à noite quando te liguei, mas você já deve saber: garota ingênua, garoto cafajeste; garota boba, garoto se aproveita; garota se apaixona, garoto vai embora; É sempre o mesmo clichê, acho que eu nunca aprendo mesmo. Você foi muito legal comigo, parece mesmo ser alguém que vale a pena, e por isso mesmo eu não quero estragar a sua vida comigo. Obrigada, viu? E caso ainda queira contato, meu número está no seu celular, mas eu não coloquei meu nome, então acho que você vai ter que pensar um pouco. Já seu número… eu apaguei do meu. Agora você está no controle, rsrs. Não vou esperar ligação nenhuma, mas se ela chegar, eu ficarei muito feliz, acredite. Você nunca mais vai me ver daquele jeito, é uma promessa. A estranha do supermercado.”. No mesmo instante, procurei meu celular, que estava no criado ao lado da cama, e procurei por “Estranha do supermercado”. Nada. “Clara”, também nada. “Garota do azeite” também não funcionou, assim como “Mulher da minha vida”, “Alma gêmea” ou “Linda do supermercado”. Nada, nada. Aí eu procurei entre todos os contatos, o que não foi uma tarefa fácil, admito, e achei na letra M: Merdas, problemas e tudo que pode te fuder. Quando eu estava indo ligar, ainda apareceu uma janelinha na tela: “Pense bem”. Uau, ela arquitetara um ótimo plano, nem eu sabia fazer isso no meu celular. Chamou, chamou, chamou. Cinco vezes, e então atendeu uma voz conhecida. Não a voz chorando, que me ligara na noite passada. Atendeu a voz daquela loirinha linda do supermercado. Atendeu uma voz que fala desesperadamente e come letras, talvez até palavras. Uma voz animada, feliz. Eu percebi então, que era assim que aquela voz tinha que permanecer. Era assim que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida, e principalmente, percebi que eu queria ouvi-la pelo resto da minha vida. Percebi que eu precisava daquela voz, daquela risada, e principalmente, daquela garota. Precisava cuidar dela. Atendeu, e perguntou “Estranho do supermercado?”.
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— Ela foi embora, cara.
— E você não fez nada?
— Fiz, abri a porta pra que ela saísse.
— (silêncio)
— Qual é o seu problema?
— Sei lá, eu sou um bêbado e nunca gostei de ninguém na vida. Fora isso? Nenhum.
— Ela te ligou hoje cedo?
— Não, só deixou um bilhete em cima da cômoda.
— E o que tava escrito?
— Não me lembro. Rasguei o papel quando vi que era dela.
— Tu é um filho da puta.
— Eu sei, ela disse isso por várias vezes, chorando ao telefone na noite anterior. Eu nem sei com quem ela tava falando, mas ela falava baixo, achava que eu tava dormindo, eu não tava dormindo. Pior do que ouvir você dizer que eu não valho nada, foi ler tudo que eu li. Ela dizia que tinha ido embora, mas era eu quem tinha a abandonado primeiro. Acha que fui covarde abrindo a porta pra ela sair? Diz isso porque não viu a cara dela quando eu não fiz nada pra que ela ficasse.
— E o amor? Como fica?
— Fica comigo.
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Como nunca mais…
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